TSTRRAg 13358-16.2019.5.15.0069
Fazenda pública: terceirização
- Direito Constitucional
- Processo Civil
- Direito do Trabalho
- Direito do Consumidor
- Fazenda pública
- Terceirização
- Responsabilidade subsidiária
- Culpa in vigilando
- Ônus da prova
- Transcedência jurídica
Ementa
I - AGRAVO DE INSTRUMENTO DA 2ª RECLAMADA . RECURSO DE REVISTA SOB A ÉGIDE DA LEI 13.467/17. FAZENDA PÚBLICA . TERCEIRIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA. CULPA IN VIGILANDO . ÔNUS DA PROVA. TRANSCEDÊNCIA JURÍDICA. REQUISITOS DA LEI 13.015/14 ATENDIDOS. O debate acerca do reconhecimento da responsabilidade subsidiária, tema objeto de decisão em ação declaratória de constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal, ADC 16, e da Súmula 331 do TST. Ademais, houve mudança de entendimento sobre a questão, mormente após o julgamento dos embargos de declaração opostos no RE 760.931 pelo Supremo Tribunal Federal, bem como do E-ED-RR-62-40.2017.5.20.0009, em sessão Plenária realizada pela Subseção I Especializada em Dissídios Individuais do TST, quórum completo em 10/ 09/2020, cuja decisão definiu competir à Administração Pública o ônus probatório. Essas circunstâncias estão aptas a demonstrar a presença do indicador de transcendência jurídica . FAZENDA PÚBLICA. TERCEIRIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA. CULPA IN VIGILANDO . ÔNUS DA PROVA. Controvérsia sobre o ônus da prova, relacionado à culpa in vigilando , exigível para se atribuir responsabilidadesubsidiáriaà Administração Pública, quando terceiriza serviços. Atribuir ao trabalhador terceirizado o ônus de provar que a autoridade gestora de seu contrato não teria sido diligente na fiscalização do cumprimento de obrigações trabalhistas pela empresa terceira corresponde a fazer tábula rasa do princípio consagrado - em favor do consumidor e, por desdobramento, de outras pessoas ou grupos vulneráveis - pelo art. 6º, VIII, da Lei 8.078/90, qual seja, o direito "a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências". O princípio da aptidão para a prova resultou inclusive absorvido e ritualizado pelo art. 818, § 1º, da CLT. A prova que recai sobre o trabalhador terceirizado, no tocante a nuances do negócio jurídico que se desenvolve entre as empresas que se beneficiam de seu trabalho (pois é disso que estamos a tratar quando aludimos à fiscalização de uma empresa sobre a conduta de outra empresa), é "prova diabólica", insusceptível de atendimento por diligência do empregado. Noutro ângulo, vê-se que o encargo de fiscalizar o cumprimento do contrato administrativo não deriva de construção doutrinária ou jurisprudencial, sendo, antes, imposição da Lei 8.666/93 (a mesma lei que imuniza o poder público que age sem culpa). Entende-se, portanto, que o Supremo Tribunal Federal reservou à Justiça do Trabalho decidir acerca do ônus da prova, no tocante à fiscalização do cumprimento de obrigações trabalhistas pela empresa que a Administração Pública contrata para a intermediação de serviços, cabendo ao poder público tal encargo. Decisão regional em harmonia com a Súmula 331 do TST. Agravo de instrumento não provido. II - AGRAVO DE INSTRUMENTO DO RECLAMANTE . RECURSO DE REVISTA SOB A ÉGIDE DA LEI 13.467/17. INTERVALO INTRAJORNADA. JORNADA DE TRABALHO DE SEIS HORAS HABITUALMENTE ULTRAPASSADA. DEVIDO O PAGAMENTO DO INTERVALO SUPRIMIDO COMO HORA EXTRA . APLICAÇÃO DA SÚMULA 437, IV, DO TST. TRANSCEDÊNCIA POLÍTICA. O debate acerca da possibilidade de se remunerar como hora extra o período de intervalo intrajornada não concedido detém transcendência política, nos termos do art. 896-A, § 1º, II, da CLT. Ante possível contrariedade à Súmula 437, IV, do TST, nos termos exigidos no artigo 896 da CLT, provê-se o agravo de instrumento para determinar o processamento do recurso de revista. III - RECURSO DE REVISTA SOB A ÉGIDE DA LEI 13.467/17. INTERVALO INTRAJORNADA. JORNADA DE TRABALHO DE SEIS HORAS HABITUALMENTE ULTRAPASSADA. DEVIDO O PAGAMENTO DO INTERVALO SUPRIMIDO COMO HORA EXTRA . APLICAÇÃO DA SÚMULA 437, IV, DO TST. O Regional não acolheu a pretensão do reclamante no sentido de que deveria haver pagamento de 1 hora de intervalo intrajornada naqueles períodos em que houve a extrapolação da jornada de 6 horas em razão da prestação de horas extras habituais. A Corte afirmou que não houve pedido nesse na petição inicial. Ressalte-se que, na sentença, da qual o Regional adotou os fundamentos como razões de decidir, constou que havia a prestação habitual de horas extras. O reclamante pleiteou, na inicial, o pagamento do intervalo intrajornada não usufruído. Note-se que o pedido deve abranger as hipóteses em que houve o cumprimento da jornada de até 6 horas e aquelas em que houve sua extrapolação em razão do trabalho extraordinário habitual, independentemente do tempo, já que inexiste previsão legal que estabeleça a fixação de um tempo mínimo de sobrejornada para a concessão do intervalo. O intervalo mínimo intrajornada constitui medida de higiene, saúde e segurança do empregado, garantida por norma legal imperativa, positivada no art. 71 da CLT, e constitucionalmente assegurada pelo art. 7º, XXII. Sendo assim, conforme o disposto na Súmula 437, IV, do TST, ultrapassada habitualmente a jornada de seis horas de trabalho, é devido o gozo dointervalo intrajornadamínimo de uma hora, obrigando o empregador a remunerar o período para descanso e alimentação não usufruído como extra , acrescido do respectivo adicional, na forma prevista no art. 71, caput e § 4º da CLT.Recurso de revista conhecido e provido, no particular. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS DE SUCUMBÊNCIA. RECLAMANTE BENEFICIÁRIO DE JUSTIÇA GRATUITA. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 4º DO ART. 791-A DA CLT DECLARADA PELO STF. ADI 5766. TRANSCENDÊNCIA JURÍDICA. O debate sobre a condenação do beneficiário de justiça gratuita em honorários advocatícios sucumbenciais, nas ações ajuizadas na Justiça do Trabalho após a eficácia da Lei 13.467/2017, foi objeto de decisão do STF na ADI 5766. Portanto, detém transcendência jurídica, nos termos do art. 896-A, § 1º, IV, da CLT. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS DE SUCUMBÊNCIA. RECLAMANTE BENEFICIÁRIO DE JUSTIÇA GRATUITA. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 4º DO ART. 791-A DA CLT DECLARADA PELO STF. ADI 5766. Trata-se de debate sobre a possibilidade de se exigir de litigante beneficiário de justiça gratuita honorários advocatícios sucumbenciais, na Justiça do Trabalho, em ação ajuizadas após a eficácia da Lei 13.467/2017. O tema concerne a parte do objeto da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n° 5766. O Supremo Tribunal Federal ao apreciar a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5766, julgada pelo Tribunal Pleno, em 20/10/2021, declarou a inconstitucionalidade do § 4º do art. 791-A da CLT. O dispositivo autorizava a dedução do valor dos honorários advocatícios de sucumbência dos créditos de reclamante beneficiário da justiça gratuita, quando tivesse obtido em juízo créditos capazes de suportar tal despesa processual. É certo que esta 6ª Turma, inclusive com voto deste relator, vinha entendendo que a decisão proferida na ADI 5766 teria declarado a inconstitucionalidade do § 4º do art. 791-A em sua integralidade. Cabe registrar, contudo, que a decisão da ADI foi objeto de embargos declaratórios opostos pela AGU, os quais foram rejeitados pelo Plenário do STF, em julgamento virtual finalizado no dia 20/6/2022 (publicação no DJE em 29/6/2022). Com essa decisão, a Suprema Corte esclareceu ter declarado a inconstitucionalidade de parte dos artigos 790-B, caput e § 4º, e 791-A, § 4º, da CLT, com efeito ex tunc , enfatizando, estritamente, a impossibilidade de que seja utilizado crédito auferido pelo trabalhador decorrente da própria demanda ou de outra ação trabalhista para a cobrança de honorários de sucumbência. Assim, o Regional, ao determinar retenção de parte do crédito do trabalhador beneficiário da justiça gratuita recebido em virtude dos valores a receber nesta demanda, contrariou entendimento da Suprema Corte e violou o art. 791-A, § 4º, da CLT. Recurso de revista conhecido e parcialmente provido.
Decisão
Acordam os Ministros por unanimidade, I) reconhecer a transcendência jurídica quanto ao tema "Fazenda Pública. Terceirização. Responsabilidade subsidiária. Culpa in vigilando. Ônus da prova." e negar provimento ao agravo de instrumento da segunda reclamada (Dersa); II) dar provimento ao agravo de instrumento do reclamante para determinar o processamento do recurso de revista; III) reconhecer a transcendência política com relação ao tema "Intervalo intrajornada. Jornada de trabalho de seis horas habitualmente ultrapassada. Devido o pagamento do intervalo suprimido como hora extra. Aplicação da Súmula 437, IV, do TST."; IV) conhecer do recurso de revista por contrariedade à Súmula 437, IV, do TST e, no mérito, dar-lhe provimento para deferir o pagamento total do intervalo intrajornada de uma hora, com o acréscimo de 50%, a título de hora extra, nos termos da Súmula 437, IV, do TST, naqueles dias em que, consoante os registros de horário adunados aos autos, verificar-se que a jornada de seis horas de trabalho foi ultrapassada, conforme se apurar em liquidação; V) reconhecer a transcendência jurídica no que tange ao tema "Honorários advocatícios de sucumbência. Reclamante beneficiário de justiça gratuita. Inconstitucionalidade do § 4º do Art. 791-A da CLT declarada Pelo STF. Adi 5766."; VI) conhecer do recurso de revista por violação do art. 791-A, § 4º, da CLT e, no mérito, dar-lhe parcial provimento para afastar da condenação a possibilidade de exigibilidade imediata de honorários advocatícios sucumbenciais eventualmente devidos pela parte autora, beneficiária dejustiça gratuita, ou seja, descabe a possibilidade de ser ela cobrada pelo simples fato de vir a obter em juízo, ainda que em outro processo, créditos capazes de suportar a despesa. O crédito só poderá ser executado caso a parte credora, durante o prazo da suspensão de dois anos após o trânsito em julgado da condenação, provar a alteração das condições que justificaram o deferimento dajustiça gratuita, extinguindo-se a obrigação e, consequentemente, qualquer possibilidade de execução desses honorários após esse prazo, tudo nos termos da decisão vinculante do STF na ADI 5766 e do § 4º do art. 791-A, § 4º, da CLT. Mantém-se o valor arbitrado à condenação.
Indexação
Intervalo Intrajornada; Honorários Advocatícios; Ente Público