STJAgInt no CC 210.013
Recuperação judicial: crédito trabalhista concursal
Relator(a): Daniela Teixeira
- Processo Civil
- Direito Civil
- Direito Empresarial
- Direito do Trabalho
- Recuperação judicial
- Crédito trabalhista concursal
- Centralização de atos executivos no juízo da recuperação
- Não incidência da súmula 59/STJ
- Desnecessidade de intimação do interessado para manifestação
Ementa
DIREITO PROCESSUAL CIVIL E EMPRESARIAL. AGRAVO INTERNO NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. CRÉDITO TRABALHISTA CONCURSAL. CENTRALIZAÇÃO DE ATOS EXECUTIVOS NO JUÍZO DA RECUPERAÇÃO. NÃO INCIDÊNCIA DA SÚMULA 59/STJ. DESNECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DO INTERESSADO PARA MANIFESTAÇÃO. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO.
I. Caso em exame
1. Agravo interno contra decisão monocrática que conheceu de conflito de competência e declarou competente o Juízo de Falências e Recuperações Judiciais para deliberar sobre a submissão de crédito trabalhista concursal aos parâmetros do plano de soerguimento e sobre eventuais medidas constritivas na sua persecução.
II. Questão em discussão
2. Há quatro questões em discussão: (i) saber se incide a Súmula 59/STJ diante do trânsito em julgado na Justiça do Trabalho; (ii) saber se, após o encerramento formal da recuperação judicial, subsiste competência do Juízo recuperacional para centralizar atos executivos e impor respeito ao plano aprovado; (iii) saber se o conflito de competência pode ser utilizado como sucedâneo recursal, com ofensa à coisa julgada; e (iv) saber se houve violação ao contraditório e à ampla defesa no incidente.
III. Razões de decidir
3. O conflito de competência é cabível para dirimir divergência entre juízos distintos acerca da condução de atos executivos de mesma demanda, nos termos do CF/1988, art. 105, I, d, e do CPC, art. 66; persistindo decisões inconciliáveis sobre a concursalidade e a satisfação do crédito, impõe-se a fixação da competência do Juízo da recuperação judicial.
4. Não incide ao caso a Súmula 59/STJ, pois a controvérsia não versa sobre a constituição do crédito estabilizada na Justiça do Trabalho, mas sobre os efeitos da recuperação judicial sobre crédito incontroversamente concursal e a centralização dos atos executivos, que devem observar o plano aprovado.
5. Inexiste violação ao contraditório e à ampla defesa, porque o conflito de competência é incidente processual sem natureza recursal e não demanda intimação de interessados para manifestação; a interessada constou da autuação e interpôs o presente agravo interno.
6. A concursalidade do crédito é definida pela data do fato gerador, submetendo-se aos efeitos da recuperação judicial (Lei 11.101/2005, art. 49, caput; Tema 1.051/STJ). A concessão da recuperação opera novação (Lei 11.101/2005, art. 59), extingue o título originário e impede sua execução pelo valor integral em juízo singular fora dos parâmetros do plano.
7. O encerramento formal da recuperação judicial não autoriza o prosseguimento da execução em desconformidade com o plano, já que os créditos concursais não habilitados antes do encerramento permanecem submetidos à novação e devem ser satisfeitos conforme acordado, com atos executivos sob controle do Juízo da recuperação judicial.
8. O conflito de competência não é sucedâneo recursal e não implica exame de mérito da execução nem afronta à coisa julgada; limita-se à definição do órgão competente para centralizar atos expropriatórios e controlar a essencialidade de bens e o cumprimento do plano.
IV. Dispositivo e tese
9. Agravo interno desprovido.
Decisão
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEGUNDA SEÇÃO do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 06/08/2026 a 12/08/2026, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Luís Carlos Gambogi (Desembargador Convocado do TJMG), Nancy Andrighi, João Otávio de Noronha, Humberto Martins, Raul Araújo, Maria Isabel Gallotti, Antonio Carlos Ferreira e Ricardo Villas Bôas Cueva votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Moura Ribeiro.