STJAgRg no RHC 240.327
Trancamento da ação penal: justa causa
Relator(a): Nilsoni de Freitas (desembargadora Convocada do Tjdft)
- Processo Penal
- Direito Penal
- Trancamento da ação penal
- Justa causa
- Denúncia por estupro, ameaça e lesão corporal
- Lastro indiciário mínimo
- Prosseguimento da persecução penal
Ementa
DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. JUSTA CAUSA. DENÚNCIA POR ESTUPRO, AMEAÇA E LESÃO CORPORAL. LASTRO INDICIÁRIO MÍNIMO. PROSSEGUIMENTO DA PERSECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
I. Caso em exame
1. Agravo regimental interposto contra decisão que negou provimento a recurso ordinário em habeas corpus, no qual se postulava o trancamento da ação penal por ausência de justa causa.
2. Denúncia recebida pela vara criminal competente imputando ao acusado os crimes dos arts. 213, 147, caput, e 129, § 13, do Código Penal, com suporte nas declarações da vítima e da filha do casal, além de elementos colhidos na investigação.
3. Habeas corpus originário denegado pelo Tribunal de origem, sob fundamento de existência de lastro probatório mínimo para a instauração e prosseguimento da ação penal; decisão monocrática nesta Corte Superior manteve o entendimento, ensejando o presente agravo regimental.
II. Questão em discussão
4. Há três questões em discussão, que consistem em saber se: (i) há ausência de justa causa a justificar o trancamento da ação penal por suposta inépcia da denúncia e por alegada insuficiência de lastro probatório, apoiado em declarações da vítima e de familiar; (ii) eventuais inconsistências narrativas e a inexistência de prova técnica imediata (exames ou laudos) impedem o prosseguimento da persecução penal, devendo as controvérsias ser resolvidas na instrução criminal; (iii) o Ministério Público, como titular da ação penal pública, pode oferecer denúncia com base em elementos informativos do inquérito, independentemente de indiciamento policial.
III. Razões de decidir
5. O trancamento da ação penal pela via do habeas corpus é medida excepcional, somente cabível quando manifesta a atipicidade, a causa extintiva da punibilidade, a ausência evidente de indícios de autoria ou de prova da materialidade, ou a inépcia da denúncia, hipóteses não verificadas.
6. A denúncia expõe adequadamente os fatos, qualifica o acusado e indica a classificação jurídica dos delitos imputados, atendendo aos requisitos mínimos para o exercício da ação penal.
7. Há lastro indiciário mínimo para a persecução penal, consubstanciado nas declarações da vítima e da filha, extraídas do inquérito policial, suficientes para justificar o recebimento da denúncia e o prosseguimento do processo.
8. Eventuais controvérsias sobre a dinâmica dos fatos, a coerência narrativa e a capitulação penal devem ser dirimidas na instrução criminal, perante o juízo natural, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa.
9. O Ministério Público, titular exclusivo da ação penal pública (CF, art. 129, I), detém opinio delicti e pode formar sua convicção com base nos elementos do inquérito, ainda que o relatório policial seja pelo não indiciamento.
IV. Dispositivo
10. Agravo regimental desprovido.
Decisão
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 20/08/2026 a 26/08/2026, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Og Fernandes, Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz e Carlos Pires Brandão votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Carlos Pires Brandão.