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Jurisprudências

STJAgRg no HC 1.069.297

Trancamento de ação penal: prova pré-constituída

Relator(a): Ribeiro Dantas

Ementa

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. TRANCAMENTO DE AÇÃO PENAL. PROVA PRÉ-CONSTITUÍDA. INÉPCIA DA DENÚNCIA. EXCESSO ACUSATÓRIO. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. RECURSO IMPROVIDO.

I. CASO EM EXAME

1. O recurso. Agravo regimental interposto por paciente contra decisão monocrática que não conheceu de habeas corpus voltado ao trancamento de ação penal ou, subsidiariamente, à rejeição parcial da denúncia quanto ao crime de integração em organização criminosa.

2. Fato relevante. A defesa sustenta que a controvérsia prescindiria de dilação probatória, por estar fundada em prova pré-constituída capaz de demonstrar a origem lícita do valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais) recebido pelo paciente, proveniente de venda de veículo, bem como a inexistência de vínculo subjetivo com a organização criminosa investigada.

3. Pedidos. Reitera alegações de excesso acusatório e de inépcia da denúncia, especialmente quanto ao delito previsto na Lei n. 12.850/2013, afirmando tratar-se de conduta isolada e sem estabilidade ou permanência, e requer o trancamento do processo penal ou a rejeição parcial da denúncia quanto ao crime de organização criminosa.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

4. A questão em discussão consiste em saber se, em sede de habeas corpus, com base em prova pré-constituída apresentada pela defesa, é possível: (i) reconhecer desde logo a ausência de justa causa para a persecução penal, em razão da alegada origem lícita do numerário recebido pelo paciente; (ii) declarar a inépcia da denúncia e o excesso acusatório, notadamente quanto à imputação de organização criminosa prevista na Lei n. 12.850/2013; e (iii) trancar o processo penal ou rejeitar parcialmente a denúncia, afastando imputação fundada em suposta participação estável em organização criminosa.

III. RAZÕES DE DECIDIR

5. O trancamento da ação penal pela via do habeas corpus constitui medida excepcional, cabível apenas quando se evidenciam, de plano, a atipicidade da conduta, a ausência absoluta de indícios de autoria ou materialidade ou causa extintiva da punibilidade, sem necessidade de incursão no conjunto fático-probatório.

6. A tese defensiva de que o valor recebido decorre de relação negocial lícita (venda de veículo), embora juridicamente relevante, não se apresenta com a clareza e autoevidência necessárias para demonstrar, de imediato, a ausência de justa causa, pois sua verificação demanda cotejo entre a documentação defensiva e os elementos colhidos na investigação, inclusive quanto à cronologia dos fatos, à intermediação de terceiros e ao contexto da transferência.

7. A possibilidade de exame de prova pré-constituída em habeas corpus não autoriza a substituição da instrução criminal por juízo antecipado de mérito quando indispensável a valoração aprofundada das provas ou o confronto entre versões fáticas divergentes, o que extrapola os estreitos limites cognitivos do writ.

8. Não se verifica, de plano, a alegada inépcia da denúncia, pois a peça acusatória descreve a conduta atribuída ao paciente, insere-a no contexto investigado e indica suporte indiciário mínimo, com remissão a elementos extraídos de dados telemáticos e comunicações entre terceiros, permitindo o exercício da ampla defesa, nos termos do art. 41 do Código de Processo Penal.

9. A discussão sobre a suficiência e a consistência dos elementos indiciários, a efetiva origem do numerário e a natureza da participação do paciente constitui matéria típica da instrução criminal, incompatível com a via estreita do habeas corpus.

10. Não se identifica excesso acusatório evidente neste momento processual, pois a denúncia não imputa ato isolado desconectado de contexto mais amplo, mas insere a conduta do paciente na dinâmica de suposta circulação de valores por contas de terceiros, com divisão de tarefas no âmbito de grupo investigado como organização criminosa.

11. A aferição da existência, ou não, de adesão consciente e estável a organização criminosa, ou mesmo de eventual participação meramente episódica, exige exame aprofundado do conjunto probatório sob o crivo do contraditório, o que impede a rejeição parcial da denúncia em sede de habeas corpus.

12. O quadro delineado não revela constrangimento ilegal patente, mas controvérsia fática que reclama instrução probatória, de modo que a preocupação defensiva com possível ampliação indevida da imputação e com efeitos processuais da capitulação mais gravosa não autoriza a intervenção prematura desta Corte.

13. Ausentes elementos capazes de infirmar os fundamentos da decisão agravada, impõe-se a manutenção dessa decisão por seus próprios termos.

IV. DISPOSITIVO E TESE

14. Resultado do Julgamento: Agravo regimental improvido.

Tese de julgamento:

1. O habeas corpus somente autoriza o trancamento da ação penal quando a atipicidade da conduta, a ausência absoluta de indícios de autoria ou materialidade ou causa extintiva da punibilidade se mostrarem evidentes, sem necessidade de exame aprofundado de provas.

2. A existência de prova pré-constituída apresentada pela defesa não permite substituir a instrução criminal por juízo antecipado de mérito em habeas corpus quando imprescindível o cotejo entre versões fáticas e a valoração integrada do acervo probatório.

3. Denúncia que descreve a conduta, insere o fato no contexto investigado e indica suporte indiciário mínimo, viabilizando o exercício da ampla defesa, não é inepta, nos termos do art. 41 do Código de Processo Penal.

4. A alegação de excesso acusatório na imputação de organização criminosa, quando fundada em discussão sobre a densidade do vínculo subjetivo e a estabilidade da participação, demanda instrução probatória e não pode ser acolhida em sede de habeas corpus.

Dispositivos relevantes citados: CPP, art. 41; Lei n. 12.850/2013.

Jurisprudência relevante citada: Não há precedentes jurisprudenciais expressamente mencionados no voto.

Tese

1. O habeas corpus somente autoriza o trancamento da ação penal quando a atipicidade da conduta, a ausência absoluta de indícios de autoria ou materialidade ou causa extintiva da punibilidade se mostrarem evidentes, sem necessidade de exame aprofundado de provas.

2. A existência de prova pré-constituída apresentada pela defesa não permite substituir a instrução criminal por juízo antecipado de mérito em habeas corpus quando imprescindível o cotejo entre versões fáticas e a valoração integrada do acervo probatório.

3. Denúncia que descreve a conduta, insere o fato no contexto investigado e indica suporte indiciário mínimo, viabilizando o exercício da ampla defesa, não é inepta, nos termos do art. 41 do Código de Processo Penal.

4. A alegação de excesso acusatório na imputação de organização criminosa, quando fundada em discussão sobre a densidade do vínculo subjetivo e a estabilidade da participação, demanda instrução probatória e não pode ser acolhida em sede de habeas corpus.

Decisão

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 07/05/2026 a 13/05/2026, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay Neto, Maria Marluce Caldas e Reynaldo Soares da Fonseca votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca.

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