STJAgRg no HC 1.070.513
Tráfico de drogas: prisão preventiva
Relator(a): Antonio Saldanha Palheiro
- Processo Penal
- Direito Penal
- Tráfico de drogas
- Prisão preventiva
- Prisão domiciliar para mãe de crianças menores de 12 anos
- HC coletivo n. 143.641/SP do STF
- Imprescindibilidade presumida
- Gravidade concreta sem excepcionalidade
Ementa
DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. PRISÃO PREVENTIVA. PRISÃO DOMICILIAR PARA MÃE DE CRIANÇAS MENORES DE 12 ANOS. ARTS. 318, V, E 318-A DO CPP. HC COLETIVO N. 143.641/SP DO STF. IMPRESCINDIBILIDADE PRESUMIDA. GRAVIDADE CONCRETA SEM EXCEPCIONALIDADE. AGRAVO REGIMENTAL PROVIDO.
1. A legislação processual penal, notadamente os arts. 318, V, e 318-A do CPP, interpretada em consonância com o HC coletivo n. 143.641/SP do Supremo Tribunal Federal, assegura a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar à gestante e à mãe de criança menor de 12 anos, ressalvadas as hipóteses legais de crimes praticados com violência ou grave ameaça, contra descendentes, ou situações excepcionalíssimas devidamente motivadas.
2. A imprescindibilidade dos cuidados maternos é presumida pela lei para incidência do art. 318, V, do CPP, sendo desnecessária a comprovação de exclusividade dos cuidados ou de desamparo das crianças nas hipóteses de segregação cautelar, conforme orientação desta Corte Superior de Justiça.
3. Não se admite, no âmbito do art. 318, V, do CPP, critério restritivo não previsto em lei, como a exigência de demonstração de que a mãe seja a única responsável pelos cuidados dos filhos, ou a circunstância de a custodiada não se encontrar - momentaneamente -, por ocasião da prisão em flagrante, no mesmo estado de residência das crianças, porquanto tais elementos não descaracterizam, isoladamente, o vínculo parental nem afastam a presunção legal de imprescindibilidade.
4. O afastamento da prisão domiciliar demanda fundamentação idônea e casuística, independentemente de comprovação de indispensabilidade da presença da mãe, sob pena de violação do art. 318, V, do CPP, na linha do entendimento desta Corte Superior.
5. No caso, embora as instâncias ordinárias tenham registrado que as filhas da agravante estão sob os cuidados da avó materna e que, no momento da prisão em flagrante, a custodiada não se encontrava no estado de residência das menores, tais circunstâncias não configuram, por si sós, situação excepcionalíssima apta a afastar o benefício legal, mormente quando o delito imputado não envolveu violência ou grave ameaça nem foi praticado contra descendentes.
6. A apreensão de aproximadamente 2 kg de maconha em tabletes, 0,978 kg de haxixe fracionado em 10 porções e 50 g de maconha embalada, transportados em ônibus interestadual, embora evidencie gravidade concreta e autorize a custódia para garantia da ordem pública, não constitui, isoladamente, excepcionalidade suficiente para obstar a aplicação do art. 318, V, c/c o art. 318-A do CPP, prevalecendo a proteção integral da criança e a presunção de imprescindibilidade dos cuidados maternos, ausentes os óbices legais.
7. Agravo regimental provido para substituir a prisão preventiva por prisão domiciliar, sem prejuízo da imposição concomitante de medidas cautelares do art. 319 do CPP, a critério do Juízo de primeiro grau.
Decisão
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA, por maioria, dar provimento ao agravo regimental, nos termos do voto do Sr. Ministro Og Fernandes, que lavrará o acórdão. Votaram com o Sr. Ministro Og Fernandes os Srs. Ministros Carlos Pires Brandão, Sebastião Reis Júnior e Rogerio Schietti Cruz. Vencido o Sr. Ministro Antonio Saldanha Palheiro.
Indexação
"Em alinhamento à decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, o Superior Tribunal de Justiça já decidiu que, 'para haver a substituição de prisão preventiva por prisão domiciliar de gestante ou de mãe de menores de 12 anos de idade, nenhum requisito é legalmente exigido além da prova dessa condição' [...]". "[...] a circunstância de a paciente não se encontrar, no momento da prisão em flagrante, no estado em que residem suas filhas não implica ausência de vínculo maternal ou de responsabilidade sobre as menores. A ausência física momentânea, decorrente de deslocamento interestadual, não pode ser equiparada a abandono ou a inexistência de imprescindibilidade, sob pena de se criar critério não previsto em lei para restringir direito expressamente assegurado". (VOTO VENCIDO) (MIN. ANTONIO SALDANHA PALHEIRO) "[...] não há que se falar em prisão domiciliar, pois as circunstâncias concretas do caso denotam uma situação extremamente excepcional: a paciente nem sequer estava no estado em que vive suas filhas, atualmente sob os cuidados de sua genitora". "Como bem ponderado pela Corte a quo, '[e]vidente a gravidade em concreto do delito, em tese, praticado pela paciente (tráfico de drogas), uma vez que foi apreendida significativa quantidade de entorpecentes, consistindo em aproximadamente 2 kg de maconha em tabletes, 0,978 kg de haxixe fracionado em 10 porções e mais 50 g de maconha embalada, todos localizados no interior da mochila transportada pela paciente em ônibus interestadual' [...]".