STJAgRg no AREsp 3.122.302
Homicídio na direção de veículo automotor: pronúncia por dolo eventual
Relator(a): Joel Ilan Paciornik
- Processo Penal
- Direito Penal
- Homicídio na direção de veículo automotor
- Pronúncia por dolo eventual
- Embriaguez, velocidade excessiva e avanço supresa na pista contrária
- Validade de prova testemunhal e exame clínico irrepetível
Ementa
DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. PRONÚNCIA POR DOLO EVENTUAL. EMBRIAGUEZ, VELOCIDADE EXCESSIVA E AVANÇO SUPRESA NA PISTA CONTRÁRIA. VALIDADE DE PROVA TESTEMUNHAL E EXAME CLÍNICO IRREPETÍVEL. SÚMULAS N. 568 E N. 7/STJ. AGRAVO DESPROVIDO.
I. CASO EM EXAME
1. Recurso interno contra decisão monocrática proferida em recurso especial, que, com fundamento na Súmula 568/STJ, conheceu parcialmente do recurso, negando-lhe provimento, mantendo a pronúncia por homicídio doloso eventual em razão de acidente de trânsito decorrente de condução sob efeito de álcool, velocidade excessiva e invasão de contramão.
2. Fato relevante. A embriaguez foi reconhecida por prova oral colhida em juízo e por exame clínico médico, somada à dinâmica do sinistro (alta velocidade e ultrapassagem com ingresso na pista contrária), que culminou em colisão frontal e morte de passageira.
3. Fundamentos do agravo. O agravante alega error in procedendo e error in judicando: (i) necessidade, à época dos fatos (15/9/2012), de comprovação técnica de alcoolemia conforme a Lei 11.705/2008 e o art. 306 do CTB; (ii) violação aos arts. 155 e 158 do CPP; (iii) incidência do princípio do in dubio pro reo; (iv) inaplicabilidade da Súmula 7/STJ por pretensa revaloração jurídica; e (v) inexistência de entendimento dominante a autorizar decisão monocrática pela Súmula 568/STJ. Alega, ainda, dissídio jurisprudencial quanto à indispensabilidade de perícia técnica para atestar embriaguez em fatos anteriores à Lei 12.760/2012.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
4. A questão em discussão consiste em: (i) saber se a decisão monocrática, amparada na Súmula 568/STJ, poderia negar provimento ao recurso especial diante de entendimento dominante; (ii) saber se, sob a égide da Lei 11.705/2008, a ausência de teste de etilômetro inviabiliza a pronúncia por homicídio, quando há prova oral e exame clínico médico acerca do estado de embriaguez; (iii) saber se elementos colhidos na fase inquisitorial podem ser utilizados quando corroborados por provas produzidas em juízo, bem como se o exame clínico médico, como prova irrepetível, é idôneo para fundamentar a pronúncia; (iv) saber se é possível, em sede de recurso especial, desclassificar a imputação de dolo eventual para culpa consciente, à luz da Súmula 7/STJ; (v) saber se incide o princípio do in dubio pro reo na hipótese; e (vi) saber se há dissídio jurisprudencial demonstrado, com identidade fático-jurídica, quanto à necessidade de perícia técnica para atestar embriaguez.
III. RAZÕES DE DECIDIR
5. A Súmula 568/STJ autoriza o relator, monocraticamente, a dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante, e a existência de agravo interno ao colegiado afasta nulidade do julgamento singular.
6. A exigência de prova técnica de alcoolemia prevista na Lei 11.705/2008 refere-se ao delito do art. 306 do CTB, não se aplicando como condição de materialidade ao crime de homicídio. A embriaguez pode ser demonstrada por prova oral e por exame clínico médico constante dos autos.
7. Os elementos colhidos no inquérito podem ser utilizados quando corroborados por provas produzidas em juízo, nos termos do art. 155 do CPP, e o exame clínico médico constitui prova irrepetível idônea para fundamentar a decisão de pronúncia.
8. A definição do elemento subjetivo (dolo eventual ou culpa consciente), em delitos dolosos contra a vida, deve ser submetida ao Tribunal do Júri, juiz natural da causa, somente se admitindo desclassificação quando ausentes quaisquer indícios de dolo, sob pena de ofensa à competência constitucional e à soberania dos veredictos.
9. O princípio do in dubio pro reo não incide quando há suporte probatório seguro quanto à materialidade e aos indícios de dolo eventual, consubstanciados na combinação de embriaguez, alta velocidade e invasão de contramão.
10. A pretensão de afastar o dolo eventual para a forma culposa demanda reexame do conjunto fático-probatório, providência obstada pela Súmula 7/STJ em sede de recurso especial.
11. Não se comprova o dissídio jurisprudencial, por ausência de similitude fática entre o acórdão recorrido e os paradigmas, especialmente quanto às circunstâncias adicionais (velocidade incompatível e ingresso na pista contrária) que sustentam a submissão ao Júri.
IV. DISPOSITIVO E TESE
12. Resultado do Julgamento: Agravo regimental desprovido.
Teses de julgamento:
Dispositivos relevantes citados:CPP, art. 155; CPP, art. 158; CTB, art. 306; CF/1988, art. 5º, XXXVIII; Súmula 568/STJ; Súmula 7/STJ; Lei 11.705/2008; Lei 12.760/2012; CP, art. 121, § 2º, IV
Jurisprudência relevante citada:STJ, HC 849.984/RS, Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, j. 11.02.2025, DJEN 25.02.2025; STJ, REsp 1.922.058/SC, Ministro Olindo Menezes (Desembargador Convocado), Sexta Turma, j. 14.09.2021, DJe 21.09.2021; STJ, AgRg no AREsp 1.166.037/PB, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, j. 17.12.2019, DJe 19.12.2019; STJ, AgRg no REsp 2.099.850/SP, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, j. 11.12.2023, DJe 19.12.2023; STJ, HC 590.002/SE, Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, j. 14.09.2021, DJe 11.10.2021; STJ, AgRg nos EAREsp 1.633.337/MG, Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Terceira Seção, j. 09.12.2020, DJe 15.12.2020; STJ, HC 303.872/SP, Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, j. 15.12.2016, DJe 02.02.2017; STJ, REsp 1.245.836/RS, Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe 27.02.2013
Tese
Dispositivos relevantes citados:CPP, art. 155; CPP, art. 158; CTB, art. 306; CF/1988, art. 5º, XXXVIII; Súmula 568/STJ; Súmula 7/STJ; Lei 11.705/2008; Lei 12.760/2012; CP, art. 121, § 2º, IV
Decisão
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Turma, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental. Os Srs. Ministros Messod Azulay Neto, Maria Marluce Caldas, Reynaldo Soares da Fonseca e Ribeiro Dantas votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca.