STJAgRg no RHC 231.363
Reiteração de pedidos em habeas corpus: unirrecorribilidade recursal
Relator(a): Maria Marluce Caldas
- Processo Penal
- Direito Penal
- Reiteração de pedidos em habeas corpus
- Unirrecorribilidade recursal
- Inexistência de fato novo
Ementa
DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. REITERAÇÃO DE PEDIDOS EM HABEAS CORPUS. UNIRRECORRIBILIDADE RECURSAL. INEXISTÊNCIA DE FATO NOVO. INADMISSIBILIDADE DO RECURSO ORDINÁRIO QUANDO O WRIT NÃO É CONHECIDO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO; RECURSO ORDINÁRIO NÃO CONHECIDO.
I. Caso em exame
1. O recurso. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que negou provimento ao recurso ordinário em habeas corpus, no qual se postulava o reconhecimento de nulidades por comprometimento da imparcialidade judicial e violação ao sistema acusatório, em razão de suposto protagonismo do magistrado na condução dos interrogatórios.
2. Fato relevante. A Agravante sustenta inexistência de reiteração de pedidos, invoca como "fato novo" o julgamento do REsp n. 2.214.638/SC, e afirma ser cabível o recurso ordinário por considerar materialmente denegatória a decisão de origem.
3. As decisões anteriores. O habeas corpus originário não foi conhecido pelo Tribunal local, por configurar reiteração de pedidos acobertada pela coisa julgada. Há notícia de sentença condenatória recorrível e de apelação criminal pendente. A controvérsia sobre o alegado protagonismo judicial já foi examinada e rejeitada em decisões anteriores das instâncias ordinárias e desta Corte, com trânsito em julgado.
II. Questão em discussão
4. Há quatro questões em discussão: (i) saber se a impetração configura reiteração de pedidos com a mesma causa de pedir, obstada pela coisa julgada; (ii) saber se o princípio da unirrecorribilidade e a pendência de apelação criminal impedem o conhecimento do habeas corpus e do seu recurso; (iii) saber se o acórdão proferido em recurso especial pela Sexta Turma configura "fato novo" apto a reabrir a controvérsia e afastar a preclusão; e (iv) saber se é cabível recurso ordinário em habeas corpus quando o writ originário não é conhecido.
III. Razões de decidir
5. A identidade do núcleo fático (postura ativa do magistrado nos interrogatórios) evidencia reiteração de pedidos em habeas corpus, já apreciados e sepultados pela coisa julgada, o que impede nova discussão da mesma controvérsia por mera reformulação da qualificação jurídica. 6. O princípio da unirrecorribilidade veda a tramitação simultânea de habeas corpus (ou seu recurso) e de recurso próprio contra o mesmo ato, especialmente diante da pendência de apelação criminal com devolutividade ampla para exame de nulidades.
7. O julgado da Sexta Turma invocado não possui efeito vinculante nem erga omnes (CPC, art. 927), produzindo efeitos apenas inter partes, razão pela qual não configura "fato novo" apto a afastar a preclusão e a coisa julgada no caso concreto. 8. A ausência de conhecimento do habeas corpus originário pelo Tribunal de origem obsta o manejo de recurso ordinário em habeas corpus, nos termos da orientação consolidada quanto ao art. 105, II, "a", da Constituição Federal. 9. A alegação de protagonismo judicial nos interrogatórios, além de já repelida em decisões pretéritas, encontra disciplina nos arts. 187 e 188 do CPP e não demonstrou prejuízo concreto (CPP, art. 563), o que afasta nulidade.
IV. Dispositivo e tese
6. Resultado do Julgamento: Agravo regimental desprovido, mantido o não conhecimento do recurso ordinário em habeas corpus.
Tese de julgamento:
1. A reiteração de pedidos em habeas corpus com a mesma causa de pedir e pretensão é inadmissível, por força da coisa julgada. 2. O princípio da unirrecorribilidade impede a utilização simultânea de habeas corpus (ou seu recurso) e de recurso próprio contra o mesmo ato, notadamente quando há apelação criminal pendente. 3. Precedente não vinculante não constitui "fato novo" apto a reabrir controvérsia já estabilizada, nos termos do art. 927 do CPC. 4. O recurso ordinário em habeas corpus não é cabível quando o writ originário não é conhecido pelo Tribunal de origem. 5. A condução do interrogatório pelo magistrado, nos termos dos arts. 187 e 188 do CPP, não acarreta nulidade sem demonstração de prejuízo concreto.
Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 105, II, "a"; CPC, art. 927; CPP, arts. 187, 188, 212, 563
Jurisprudência relevante citada: STJ, AgRg no HC 935.026/SC, Quinta Turma, j. 28.05.2025, DJEN 02.06.2025; STJ, AgRg no AR Esp 2.961.780/SC, Quinta Turma, j. 02.09.2025, DJEN 08.09.2025; STJ, RCD no HC 944.227/MS, Sexta Turma, j. 05.03.2025, DJEN 12.03.2025; STJ, AgRg no HC 961.072/AL, Quinta Turma, j. 26.02.2025, DJEN 07.03.2025; STJ, AgRg no HC 961.208/MS, Sexta Turma, j. 30.04.2025, DJEN 08.05.2025; STJ, RHC 196.201/SC, decisão monocrática, trânsito em 16.04.2024; STJ, RHC 213.564/MA, Sexta Turma, j. 18.06.2025, DJEN 26.06.2025
Tese
1. A reiteração de pedidos em habeas corpus com a mesma causa de pedir e pretensão é inadmissível, por força da coisa julgada. 2. O princípio da unirrecorribilidade impede a utilização simultânea de habeas corpus (ou seu recurso) e de recurso próprio contra o mesmo ato, notadamente quando há apelação criminal pendente. 3. Precedente não vinculante não constitui "fato novo" apto a reabrir controvérsia já estabilizada, nos termos do art. 927 do CPC. 4. O recurso ordinário em habeas corpus não é cabível quando o writ originário não é conhecido pelo Tribunal de origem. 5. A condução do interrogatório pelo magistrado, nos termos dos arts. 187 e 188 do CPP, não acarreta nulidade sem demonstração de prejuízo concreto.
Decisão
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em Sessão Virtual de 10/09/2026 a 16/09/2026, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Messod Azulay Neto votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca.